"Um caminho que se percorre não com pernas, mas com coração. E onde o único desafio que vale, é percorrê-lo por inteiro."


sábado, 24 de julho de 2010

Reflexo e reflexão

Nesse momento me encontro sentada num quarto de hospital.



Na cama ao meu lado, a senhora está deitada, debilitada, respirando com ajuda de um aparelho de oxigênio.

Estou sentada num sofazinho.
Verde.
Verde bem claro.

Minha bolsa do lado. Aberta. Saindo dela "A menina que roubava livros".
O marcador na página 19.

Esse livro começa com um prólogo da Morte.
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Olho para o rosto da senhora.
Bem pálida.
Ela está dormindo. Respira com dificuldade mas quase não se mexe.
Ela está tomando uma medicação injetável.
O soro cai numa velocidade média.
Gota por gota.

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A televisão está desligada. Olho e vejo o reflexo da senhora, meio escuro.
Parece mais triste o reflexo do que a visão.
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Presto atenção nas marcas na pele dela.
Marcas de idade.
A pela enrrugada, as manchas.
Cabelos muito brancos, já compridos de tanto tempo internada.
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Pego a mão dela. Noto a semelhança da mão dela com a minha.

Meu sangue.

Se não fosse aquela senhora eu não estaria viva.
E quando eu for a senhora na cama?
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Senti pena.
Senti dó.
Senti dor.
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Desejei nunca ter que passar por isso.
Por enfermeiros trocando fraldas, por dependência da família, por falta de saúde, por comida na boca e dentaduras sujas.
Passar, talvez últimos dias num quarto verde claro.
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Minúsculo.

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Naquele momento senti medo.
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Lágrimas escaparam e eu logo as sequei.
Vi que existe um limite onde podemos ou não controlar nossas vidas.
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Mais tarde chegaram visitas.
Eu não prestei atenção na conversa.
Pensava em outras coisas.
Mas prestei atenção numa coisa.
No momento da despedida.

Na oração feita fervorosamente, para aquele que segundo a crença em questão tinha o poder de mudar aquela vida.
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Não temos o controle total de nossas vidas, sabendo disso as pessoas buscam aquele que tenha, porque acreditar que o controle disso não pertence a ninguém é muito doloroso.
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Não temo por heresias.
Não temo por pecados.
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Algumas horas depois eu me encontro na saída do hospital, sentada num degrau de pedra fria e dura.
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No meu lado encontra-se um anão.
Um anão vendendo biscoitos.
Biscoitos por R$ 2,40.
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Eu já havia conversado com ele.
Uma boa pessoa, que assim como a senhora, de formas diferentes, perdeu o controle de sua vida. .

Há também, na minha frente um homem de meia idade, que está limpando o chão de sua lanchonete.
Ele está somente com uma bermuda.
Está uma noite fria.
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São 21:30h.
A bermuda era vermelha.
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Não acredito que aquele tenha sido o sonho de sua vida, mas ele estava lá de qualquer forma.
O anão foi até ele, e ambos ficaram conversando por um momento.
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Eu tenho muito respeito por todas as pessoas.
Faz parte da minha ideologia.
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Faz parte de ser quem eu sou.
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Todas elas pra mim valem muito.
Todos os tipos, todas as esquisitices humanas.
Todos os defeitos. Todo o submundo.
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Não sei se terei respeito por mim se tudo der errado e eu perder o controle de tudo.
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Tenho medo do tempo. Ele me apavora.
Tenho medo do meu corpo não me aguentar.
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Quero guardar o mundo em mim, e me sinto tão cheia de todos os tipos de coisas que não sei se terei todo esse espaço.
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Me sinto sempre a ponto de uma explosão.
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Agora eu entro novamente no quarto de hospital verde claro chato.
Me aproximo para dar um beijo de tchau na senhora.
Suas mãos me procuram desajeitadamente.
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Na sede.
No anseio.
Na ânsia.
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Ela não tem vontade de me ver ir embora.
Realmente, fica um nó ao cruzar a porta.

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Senhoras.
Tempos.
Mortes.
Anões.
Idéias.
Orações.
Biscoitos.
Livros.
Lanchonetes.


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Noites frias.
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Tudo dentro de mim.
Explodindo.
Hoje.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Só isso

"Meu coração vagabundo quer guardar o mundo em mim."

Eu.
Só isso.
Em essência.
Ao máximo impossível.

domingo, 27 de junho de 2010

Um pouco da minha vida no Moulin Rouge






O Moulin Rouge.
Uma casa noturna.
Um salão de dança e um bordel.
Um reino de prazeres noturnos, aonde os ricos e poderosos vem brincar com as jovens e belas criaturas do submundo.
Cantora de cabaré, dançarina de cancan...

Where is all my soul sisters?
Let me hear your flow, sisters
Hey sister, go sister, soul sister, flow sister
Hey sister, go sister, soul sister, go sister


It's time to get out
Step out into the street
Where all of the action
Is right there at your feet
Well...


quinta-feira, 24 de junho de 2010

Pra mim

Enlouquecida e descabelada ao virar as últimas folhinhas do meu calendário fictício.
Dias voaram, semanas desapareceram e meses se foram.
Tanta, mais tanta, mais tanta coisa em minha vida chegou, aconteceu, mudou, acabou.
Agora me encontro em um estado estável estranho.
Poemas? Não quero.
Histórias? Não muito.
Pensar? Por favor não!
Para mim, hoje, apenas algumas palavras dos últimos fatídicos acontecimentos de meus desventurados dias meses semanas do imaginário calendário alado.


Coragem.
Verdade.
Sem fôlego.
Noites em claro.
Fatos.
Beijos.
Ilusão.
Lágrimas.
Papel.
Marcas.
Mais noites em claro.
Música.
Dança.
E 7 e 8.
E mais coragem.
Olheiras.
Arrependimento.
Sentimento.
Dor.
Palco.
Luz.
Medo.
Show.
Caminhos.
Panos, muitos panos.
E mais muitas noites em claro.
Tristeza.
Desapego.
Cansaço.
Distanciamento.
Corpo.
Prazer.
Desprazer.
Substâncias.
Pessoas.
Tudo e mais um pouco.
O próprio ralo onde tudo passa.
Sugador de experiências que sou.
Enfim foi.
Tantas e tantas coisas.
Agora talvez...
Um tempinho pra mim?
Sim... por favor...
Pensar?
Não... não obrigada.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Ninguém

Quatro personagens:
Todo Mundo / Alguém / Qualquer um / Ninguém

Todo Mundo é Alguém
Ninguém é Ninguém
Todo Mundo quer ser Alguém,
Mas não um "Alguém Qualquer Um", um "Alguém Alguém"

Afinal, quem gostaria de ser.... Qualquer Um?
Um Ninguém?
E nessa luta de Todo Mundo querendo ser Alguém
Qualquer Um passa a ser Ninguém

Mas essencialmente, o que é ser Alguém?
Afinal de contas Todo Mundo é Qualquer Um!
Qualquer Um?
Ninguém

Texto feito com base no texto "Das Expressões", para exercícios cênicos com direção de Guilherme Santanna, no curso de Teatro da Universiadade Anhembi Morumbi.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Palavra

Vida.
Fazê-la, vivê-la, senti-la
Entender e mergulhar na sina

Uma lágrima, um riso
Uma verdade de mentira
Nossa estrada perdida
Brincadeira atrevida

Vida.
Entre pessoas e conflitos, laços e sorrisos
Abraços e suspiros, bonecos indecisos

Vida.
A vida exposta, exibida
Realidade distorcida
Aquela que canta, encanta, entristece e anima
Aquela, que enfim, no palco se firma

Retratada, escolhida
Estudada, desenhada e vivida
A vida de se imitar a vida
E viver sempre novas vidas revividas

O ato.
Ar de viver.
Vida correspondida.

Exercício feito com supervisão do diretor Guilherme Santanna, no segundo ano de teatro da Universidade Anhembi Morumbi.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Asa Delta!



No último sábado, realizei mais um vôo de asa delta, em Caraguatatuba, e devo dizer, maravilhoso!
Mais uma vez Samuel pilotou, e foi demais!

É impossível descrever a sensação de voar.
É algo que todo mundo deveria fazer antes de morrer.

Então, se você nunca vôou, pode colocar na sua lista de coisas pra fazer antes da morte que você não vai se arrepender.

Inexplicável.
Maravilhoso.

Links dos vídeos disponíveis no youtube:
Voando - Asa Delta
Asa Delta -vôo duplo - Samuel e Lívia - Caraguatatuba

Aí estão algumas fotos dessa experiência perfeita!




quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

5:28 AM

Busco palavras que não me descrevem.
Busco por sonhos que sempre enchem meus olhos de água e sal.
Busco por uma sede que não é saciada.
Busca a maré que leva e não percebe.


Quero atitudes que não aguento.
Quero verdades que se desmancham a minha boca.
Quero tornar as mentiras simples lembranças.
Quero respirar na água.



Só sei que as coisas mudam. As pessoas mudam.
Sei que somos muito menos verdadeiros do que gostaria que fôssemos.
Sei que vc me mantém prisioneira, e me acorrenta.
E sei que essa não é a sua intenção.
Sei e entendo que quanto mais tentamos esclarecer as coisas, mais confusas e embaçadas elas se tornam.


Não entendo o que escrevo ou sinto.
Passei pelo entender o desentendimento das coisas.
Tudo claro. Tudo embaçado.
Sei que aconteceu.
Sei que lembranças e rabiscos estão lá para mim.
Não sei o quanto isso é bom.
Não sei o que acontecerá.
Não sei se palavras me bastam.

Cartas, telefonemas.
Cinemas, bebidas e olhares.
Beijos, e não-beijos.

Um dia, um abraço.
Um dia, um toque.
Um dia que não volta. Voltará?

Sei que um dia...


Algo mudou.
Alguém surgiu.


Aconteceu.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Como construir um espetáculo?

Muito bem... Vamos por passos simples, e cobrindo o básico...
Este é meu projeto do 1º ano da Faculdade de Artes Cênicas, da Universidade Anhembi Morumbi. A matéria se chama "Projeto Experimental".
Sejam bem vindos a um resuminho bem básico do nosso processo experimental de 5 meses de trabalho... =)

Parte de mim
Músicas de Dorival Caymmi
Orientação: Paulo Marcos
Elenco: Carla Marco, Dan Sinclair, Guilherme Holland, Guto Moura, Lívia Lunardi, Melca Medeiros e Nadja Mahlmann



Primeiramente, encontre um grupo que você tenha afinidades, e com muita garra pra trabalhar...

Passe muitas horas da sua vida discutindo, odiando e amando muito cada pessoa do grupo.
Tenha um convívio intenso ao máximo. Diário.
Conversem infinitamente, ensaiem, e pense em cada mínimo detalhe do espetáculo.
Pense no dinheiro, faça um orçamento, e decida a melhor forma de arranjar a grana em grupo.


Nós decidimos por trabalhar muito pedindo dinheiro no farol, levando nossos clowns...


Após passar horas e horas a fio debaixo do sol, sendo rejeitado por alguns, e acolhido por outros, finalmente conte as moedas e veja que você tem o dinheiro para seu tão sonhado projeto!
Compre os figurinos e o material de cenografia, e continue ensaiando muito, infinitamente...
Não se esqueça, não se canse nunca!
Continue com a paixão pelo seu projeto em mente!
Ensaie realmente muito, e continue ensaiando...
E continue ensaiando...

Faça testes de maquiagem para ter certeza de que tudo sairá conforme o planejado...


Compre o material de cenografia, e mãos na massa!
Construa o seu cenário com muito amor e carinho!
Dê uma pequena pausa para fazer um lanche na rua, no lugar mais barato que encontrar, afinal, são todos artistas, e estão todos falidos...

E volte ao trabalho!!!



Em dia de apresentação, chegue muito cedo. As 7 da manhã.
E comece a pensar em como fazer funcionar sua cenografia...

Esse é um bom momento para você perder o medo de levar choque ou despencar de cima do teatro... Suba lá, e comece a arrumar a iluminação e o cenário...


Não desista!!! Coragem! E não caia!

Finalmente, chegando na hora...
Faça sua maquiagem com calma, não erre nada!

Vista seu figurino, e comece a aquecer sua voz...

Ainda dá tempo de comer uma maça se você quiser...


Depois do aquecimento, vá para o palco e simplesmente...


CONFIE! E DÊ O MELHOR DE SI!




Depois de arrasar no espetáculo... receba os aplausos do público! E sinta-se orgulho de seu trabalho!


Agradeça seu orientador, por tudo! E por tudo que você aprendeu com ele.

Agradeça sua amiga fotógrafa, que fez de graça as fotos do espetáculo pro seu grupo!

Valeu Kááá! Você arrasou! Muito Obrigada!

E no final, tenha sempre em mente todo o processo, e seu aprendizado. O que ele trouxe para você. Sinta a falta desse espetáculo, que não voltará mais.

Mais um processo se foi, mais um espetáculo, mais um aprendizado...

Sinta-se agradecido por viver de teatro, e sinta-se vivo. =)