"Um caminho que se percorre não com pernas, mas com coração. E onde o único desafio que vale, é percorrê-lo por inteiro."


quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Porcelana

Ela nunca tinha pensado na vida, apenas vivia.
Ela tinha uma pureza hipnotizadora em seu sorriso.
Vivia da maneira mais bela, e fácil. Era simpática a todos que cruzavam seu caminho. Sua meiguice e seu jeito de menina eram transparentes por sua alma.
Sempre era elogiada em tudo que se propunha a fazer. Sua família? A melhor possível! Papai, mamãe e irmãzinha da pura classe média alta. Lutavam por seus objetivos, mas nunca passaram alguma dificuldade. Seus amigos? Muitos! Estava sempre rodeada de pessoas alegres e felizes.
Seu rosto parecia esculpido por um anjo! Seu olhar inspirava poetas e seus cílios, dizem que são mágicos.
Era mais fácil viver sua vida perfeita e deixar os problemas dos outros a parte.
Foi quando passeava de noite, por uma rua suspeita. Um letreiro vemelho dizia: motel. Ela parou, ficou mirando o letreiro com seus olhos encantados.
Na porta havia uma figura humana. Ela não sabia dizer se era masculina ou feminina. Era simplesmente uma figura do submundo.
Os cabelos mais sedosos que já vira, com um olhar carente, com uma gota de maldade que o mundo inseriu. Sua boca suculenta, traços de um homem-mulher.
Seu corpo? O mais esplendido que a natureza poderia criar
Sua barriga e seus quadris pareciam os de uma bailarina, seguido de pernas belas que lembravam porcelana. Seus pés? Os mais perfeitos do mundo inteiro.
Vestia um espartilho. Sua saia de pregas rosa lembrava uma bailarina em sua caixinha de música. Meias transparentes vermelhas um pouco rasgadas, lhe faziam parecer uma colombina encantada. Seu olhar era terno, sofrido, que demonstrava um sentimento que nenhum homem ou nenhuma mulher seria capaz de mostrar.
Segurava uma pequena sombrinha de renda rosa e branca. Que a fazia a imperfeição parecer perfeita.
Quando ela mirou a figura deste ser mágico, se sentiu inferior. Pela primeira vez na sua vida viu a realidade do mundo de uma só vez. Viu a inocência e maldade: tudo de uma vez naquele olhar. Sentiu que queria ser outra. Qualquer uma. Ser diferente, ser como qualquer pessoa. Ser real.
Quando aquela imagem mirou os cílios mágicos da pequena boneca, por um segundo quase perdeu a pose magnífica.
Lembrou-se de sua infância. Fantasmas do passado voltariam a lhe assombrar.
A sujeira de sua alma misturava-se com a bondade nela contida.
Foi com um sussurro que voltou a realidade, ainda no mais puro êxtase.
Quando os dois olhares se misturaram as duas lembravam-se do que brincavam quando crianças.
Bonecas de porcelana.
Viu-se cacos de porcelana no chão naquela manhã.