"Um caminho que se percorre não com pernas, mas com coração. E onde o único desafio que vale, é percorrê-lo por inteiro."


domingo, 3 de agosto de 2008

Corda Bamba

Bom, esse mês para mim começou de uma forma um tanto quanto conturbada por assim dizer... Problemas, surpresas, desconfianças... Se eu fosse descrever a sensação desse finalzinho de julho e de começo de agosto descreveria assim:

''Aqui estou eu... Há vários metros de altura, olhando para o público lá em baixo. Alguns rindo, alguns apreensivos. Alguns querem que eu caia, e me acabe no chão. Esses querem ver literalmente o circo pegar fogo, querem rir da desgraça dos outros. Eles devem achar um passatempo divertido ver os outros se dando mal.
Outros querem que eu consiga, e estão com pressa pra aplaudir no final. Ficam felizes de participar de tal aventura, mesmo que seja de longe... Torcem e a torcida me anima, mas ao mesmo tempo me preocupa. Eu não quero decepcioná-los, e também não quero dar o gostinho da vitória para os que querem meu fracasso.
E eu lá em cima. Olhando para a espessa corda bamba bem na minha frente. Essa corda bamba com obstáculos no meio, e uma grande recompensa no final.
E com todo esse medo e com toda essa vontade, eu estico minha perna para dar o primeiro passo. Eu já ensaiei isso antes, mas o que o público não sabe, é que nos ensaios é totalmente diferente. Não tem pressão, e a altura nunca é tanta. Afinal, se eu cair, duvido que consiga me levantar de novo... E lá estará meu fim. Minha alma e minha derrota.
Meu pé direito encosta no começo da corda bamba. Barulho ocupa todo lugar... Finalmente começou. Barulho entrando pelos meus tímpanos e se alojando no cérebro. Todo tipo de barulho. Gritos das pessoas lá de baixo, dando conselhos... Rindo... Tirando sarro de mim... Torcendo pra mim cair... Pra mim conseguir...
O segundo pé na corda bamba. Agora não tem mais em que apoiar. É somente eu equilibrada pelo meu longo caminho na corda bamba.
Eu me equilibro e olho pra frente. São vários obstáculos. Olho então ao redor. A tenda do circo amarela e vermelha me encarando. Quase devorando meus olhos, entrando dentro deles. E o público lá em baixo... Mas atento do que nunca. Atento ao menor deslize, atento a maior proeza...
Dei os primeiros passos, passei pelos primeiros obstáculos...
Até que de repente...
Escorreguei.
Me segurei no último segundo com a ponta dos meus dedos na corda... Uma vergonha demoníaca tomou conta de mim. Não quero me decepcionar. Não quero decepcionar os que acreditam em mim. Quero provar para os que torcem pela minha queda que eu sou capaz. E quero minha recompensa no final da corda bamba.
Aos poucos coloquei uma perna, subi e graças a Deus consegui me equilibrar de pé novamente na corda bamba, que agora parece estar mais bamba do que nunca.
Então de repente... Uma tranquilidade tão tranquila se estabeleceu dentro de mim que chega até a ser incômoda. O que ela é realmente, ou porque ela veio, acho que nunca serei capaz de explicar. Com ela todo o barulho do circo parou. Eu olhei pro rosto do público lá em baixo... Eles continuavam vivos e com expressões intensas no rosto, mas de suas bocas que se moviam formando palavras e gritos... Não emitiam mais som. Ou melhor, emitiam som, mas esse som já não penetrava mais em meus ouvidos como antes. Eu era imune a eles.
Voltando a concentração dei mais um passo. A altura era imensa. E a queda seria de um dano irreparável. Eu podia tentar voltar e desistir, mas não. Essa hipótese nunca tomou realmente uma forma em meus pensamentos.
Então eu me lembro de todas as outras cordas bambas que presenciei. Aquelas em que os artistas chegavam ao final, e me serviam de exemplo. Eram vencedores. E me lembrei também daqueles que caiam durante o percurso. Tinha muito medo de ser um deles. E ainda havia todas as cordas bambas de outros circos espalhados ao redor do mundo com diversos outros artistas na mesma luta que eu.

Conseguindo ou Perdendo.
Prosseguindo ou desistindo.

Nisso eu dei mais um passo. E aqui estou eu. Olhando pra frente.
Vendo meus obstáculos.

E por enquanto....

Simplesmente me equilibrando.''