"Um caminho que se percorre não com pernas, mas com coração. E onde o único desafio que vale, é percorrê-lo por inteiro."


domingo, 21 de dezembro de 2008

Num asilo de São Paulo...

Quantas pessoas você ajudou esse ano?
O que você fez pra uma pessoa que tenha menos recursos que você?
O que você espera da sua velhice?


Este ano pela primeira vez na minha vida eu visitei um asilo. Fui junto com o Colégio Pentágono e o ''Papai Noel''. As crianças do colégio particular levaram alguns presentes para os velhinhos carentes, mas o que eles mais gostavam não era os presentes. Eram os sorrisos, os abraços, os toques e as palavras.
Quando eu entrei fiquei chocada. Tantos velhinhos com pouca consciência indo pra cima de você. Sedentos por atenção. Uma palavra, um olhar.
No começo eu me assustei. Estava com medo deles. Eles eram humanos tão diferentes e peculiares. Simplesmente estranhos. Não tinham mais muita noção de nada.
Mas aos poucos fui me soltando e conversando com eles.
Várias vezes eu simplesmente, diante de alguns casos peculiares, segurava as lágrimas e ia pra algum cantinho isolado chorar.
Afinal, o que mais essas pessoas podem esperar da vida?
Elas ficam muitas vezes sozinhas, esperando a hora de comer, do banho e de dormir. Toda a vida já ficou pra trás. Esperando quem sabe a morte chegar.

Eu como atriz, não pude também deixar de reparar a quantidade de personagens extraordinários que havia ali. Todos com seus trejeitos e suas histórias para contar.
Observei e escutei muito. Abracei e troquei experiências.


Foi realmente intenso pra mim.
Eu estava ajudando a servir frutas para os velhinhos quando ouvi um choro muito intenso. Parecia um choro de bebê. Mas havia algo perturbador naquele som. Afinal, eu sabia que não poderia ser de um bebê, e era tão desesperador que fiquei até com medo de procurar de quem era. Foi talvez o caso que mais me chocou. Quando comecei a procurar dei de cara com essa senhora da foto, deitada em sua cama e gritando igual a um bebê.
Morrendo de medo eu chamei a enfermeira e ela disse: '' Não se preocupe não! É Normal! ''
Logo descobri que essa senhora era chamada de Xuxinha. Ela não podia se levantar, pois tinha os movimentos muito limitados, então passava a vida toda na cama. Essa senhora a muito tempo já perdera a consciência. Ela apenas fica deitada enquanto as pessoas colocam papinha na sua boca, e a limpam com panos úmidos todos os dias. Ela mal consegue abrir os olhos.
Sobre movimentos ela faz apenas um: leva sua mão até o rosto e retorna pra segurar a barra de segurança da cama (como na foto). E ela realiza esse movimento repetidamente e incansavelmente. É meio decadente de se ver. E ela chora. Então a enfermeira levantou sua camisola e esfregou a barriga dela com as mãos. Imediatamente o choro de bebe se transformou em uma risadinha de criança. E essa é a vida da Xuxinha, que já tem essa rotina no asilo há mais de vinte anos.
Quando a via não aguentei. Fiquei alguns minutos no banheiro enxugando as lágrimas.



Essa outra senhora da foto não me recordo o nome, mas me chamou atenção na hora de comer sua sobremesa: mamão amassadinho. Em sua cadeira de rodas, ela não parecia muito consciente. Na realidade me recordou muito um personagem de teatro, talvez do grupo Lume.
Sua fruta já havia acabado há muito tempo, mas ela continua fazendo o movimento de pegar a fruta com a colher enquanto se projetava para frente e para trás na sua cadeira de rodas.
Ela não falava, e tinha o olhar fixo no seu potinho. E tentava sem parar pegar um alimento inexistente ou invisível do potinho de sobremesas.

Já este dois velhinhos desta foto, estavam quietos e isolados num canto do asilo. Decidi ir lá conversar com eles.
Eu cumprimentei e abracei primeiro a senhora de rosto manchado, que retribuiu feliz com um sorriso. Ela tinha um ''tique'' de sempre ir pra frente e pra trás na sua cadeira, e também de esfregar as duas mãos enquanto fala. É perceptível que ela tem uma grande dificuldade em juntas as palavras para formar uma frase coerente. Quando cumprimentei o senhor japonês, ele só me estendeu a mão com bastante dificuldade, e eu disse: '' Boa tarde! Tudo bem com o senhor? ''. Mas pelo jeito ela já não conseguia mais falar, e começou a resmungar muito e com muita intensidade. Era óbvio que ele tentava falar, e queria muito se comunicar, mas não era possível entendê-lo.
A senhora ao lado, vendo que eu não entendia me deu um olhar do tipo '' Melhor deixar ele. Coitado. Essa é a nossa vida.''
Então comecei a conversar com a senhora. Ela tinha bastante dificuldade pra conversar, e se concentrava muito, mas mesmo assim era possível dialogar com ela. Ela me contou sobre sua vida. Trabalhava em uma fábrica de tecidos, e me contou muito sobre seu serviço: ela adorava. Seu marido já havia falecido, e ela estava neste asilo a nada mais nada menos que 30 anos. Ela me contou que tinha 5 filhos: 3 meninos e 2 meninas. Eu perguntei o nome dos filhos, mas ela não soube responder, disse que já tinha esquecido. Mas que tinha certeza que uma de suas filhas se chamava Eliana. Eu brinquei com ela, falando que era o mesmo nome da cantora e apresentadora Eliana. Ela então se confundiu, e eu ouvi ela contar pro outro senhor que a sua filha era cantora e apresentadora de TV.


Este senhor tinha os membros inferiores amputados e também não se comunicava muito bem verbalmente. Mas trazia algo em seu olhar que comunica uma criança dentro dele.
Muito alegre de nos receber, na cabeceira de sua cama guardava uma foto de ''Feliz 2006!'' onde ele e o Papai Noel haviam tirado uma foto juntos. A foto estava empoeirada num pequeno porta retrato, mas ele sorria ao olhar para nós e devolver o olhar para a foto. Ele era caminhoneiro. Havia passava metade de sua vida dirigindo na estrada. Contava com dificuldade, mas com muita alegria. Ele pediu para nós um radinho de pilha para ele ouvir suas músicas de caminhoneiro. Perguntei para a enfermeira se poderia comprar um rádio para ele e deixar lá. Ela me disse que ele já tem o rádio, mas que quando fica nervoso ele sempre o joga contra a parede, então pediu para que não comprássemos o tal radinho. Também pudera, quem não ficaria com vontade de jogar um rádio na parede tento as duas pernas amputadas e vivendo na cama de um asilo dia após dia?

Essa senhora era realmente uma digna princesa. Da foto não dá pra ver muito bem, mas sua marca registrada é uma coroinha prateada que usa todos os dias. Diferente dos outros acima ela até que tem boa saúde e consciência. Quando tirei esta foto ela estava cantando e dançando para as visitas, para mostrar o quanto de alegria de viver ela ainda tem.
Suas roupas são todas coloridas, e sua risada é reconhecível a distância.

Este senhor poderia ser um bebê se não fosse pelos seus 80 anos de idade.
Ele tem um quê de quem vê tudo pela primeira vez. Muito interessado em tudo, ficou simplesmente encantado quando mostrei sua foto na câmera digital.
Soltou uma risada fraquinha.
Ele carrega sempre esse olhar. Meio espantado e admirado com as coisas.
Ele olha dessa forma para uma foto digital, para seu café da manhã, para sua cama e para suas roupas.
Como se fosse tudo uma impressionante novidade.
Esta foi a ultima com quem eu conversei.
Ela é simplesmente extraordinária! Foi a senhora que eu passei mais tempo conversando.
Ela está no asilo há mais de 30 anos, é solteira e não tem filhos.
Ela diz que nunca se casou porque nunca quis se casar e ''só''.
Muito simpática, gostava muito de receber beijinhos e abraços. Quando eu mostrei a foto da câmera pra ela, ela se assustou e disse: ''Nossa! Como eu estou velha!''. Eu brinquei com ela e disse: '' Velha nada! A senhora tá ficando é cada vez mais bonita! ''
Esses são apenas alguns casos das centenas que conheci no asilo em que visitei. Haviam (a maioria) os que amavam os presentinhos dados pelas crianças: dois pares de meias e um potinho de talco (presente requisitado pelos enfermeiros), e haviam também os que não gostavam, não queriam conversar e eram mal humorados: esses não podíamos forçar a barra.

Muitos dos velhinhos estavam lá desde que o asilo abriu há cinquenta anos e muitos muitos mesmo nos agarravam implorando por balas (diabéticos) e por alguns cigarros.

Eu não parava de pensar que estas pessoas eram pessoas comuns. Caminhoneiros, jogadores de futebol (campeão do São Paulo que ama ler Agatha Christie), donas de casal, viúvas e trabalhadores regulares. Não podia deixar de pensar que talvez eles nunca tivessem imaginado esse fim pra suas vidas. E quem me garante que esse não será um fim futuro pra minha vida?

Incrível foi ver o modo como as crianças do Pentágono interagiam com os velhinhos: sem medo algum, demonstrando muito interesse e alegria.